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Latino-americanos contam o que é fazer cobertura no continente que mais mata jornalistas

Depoimentos destacam os perigos vividos em coberturas marcadas por violência, a perseguição política de governos autoritários e a importância de redes de proteção e solidariedade 

Por: Pedro Teixeira e Thiago Baba
Edição: Ana Luisa Gomes
Arte: Beatriz Cristina e Luana Copini

Além das graves desigualdades sociais e sucessivas crises políticas que marcam a história da América Latina, a região é a que mais mata defensores dos direitos humanos no mundo, segundo a Anistia Internacional. Cuba, Nicarágua e Colômbia, por exemplo, vivem sob a marca do autoritarismo em diferentes escalas. E o alvo preferencial são os jornalistas, como aponta o recente  relatório da organização em defesa da Liberdade de Expressão Artigo 19.

Esse cenário latino-americano foi bem relatado no primeiro dia do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo por três jornalistas que atuam na região.  Eles falaram dos desafios de cobrir governos autoritários e de acompanhar as manifestações populares cada vez mais frequentes desde o início de 2021. E foram unânimes em ressaltar a importância de uma rede internacional de solidariedade para proteger o exercício livre da imprensa.

Abraham Jiménez Enoa, co-fundador e editor da revista digital El Estornudo (O Espirro), falou sobre a situação inédita vivida por Cuba, que desde 1959 vive sob regime comunista. Segundo ele, pela primeira vez em 62 anos a população tomou as ruas pelo fim da ditadura por conta da mobilização em redes sociais. As respostas do governo têm sido com medidas repressoras, impondo leis que atacam e limitam o livre exercício do jornalismo e a liberdade de expressão. 

Há uma única operadora de internet na ilha, conta Jiménez. Caso seja do interesse da empresa ou do governo, esse serviço corre o risco de ser suspenso ou cortado a qualquer instante em função do monopólio. O jornalista participou ao vivo do Congresso, diretamente das ruas de Havana, acessando uma rede de internet clandestina que frequentemente utiliza para suas coberturas. 

Também ao vivo, a jornalista nicaraguense Lucía Pineda Ubau falou ao público do Congresso a partir de San José, capital da Costa Rica. Ela está exilada no país desde junho de 2019, após passar seis meses encarcerada pelo regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo. A profissional era âncora do canal digital 100% Notícias, fechado pela polícia sandinista em dezembro de 2018. 

Foi de lá que Ubau comandou, em 2019, a reabertura do veículo on-line e da qual é, hoje, chefe de redação. “Tomamos uma decisão, vamos continuar informando, custe o que custar. Já custou o assassinato de um jornalista em 2018, a prisão para muitos de nós, já invadiram as nossas sedes”, afirmou. Ubau foi reconhecida por sua coragem na defesa da liberdade de imprensa pelo Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ) e pela Fundação Internacional de Mulheres Jornalistas (IWMF).

O colombiano Jonathan Bock Ruiz, atual presidente da  FLIP  – Fundação para a Liberdade de Imprensa, contribuiu com o debate ao apresentar relatório que registrou na Colômbia mais de 300 ataques contra jornalistas em 2020. Bock está temeroso com o clima polarizado que vive seu país a sete meses das eleições. “O governo de Iván Duque gastou US$ 7 milhões em publicidade oficial para posicionar sua imagem”, aponta. A consequência é que essa grande exposição na mídia tem dividido muito a opinião da população sobre ele, explica o jornalista.

 O governo criou até  uma campanha em que agentes públicos identificam quais notícias são falsas ou verdadeiras. “É uma Polícia da Verdade que tenta dominar o debate público e limitar a disseminação de informações contra o exército e o governo”. Segundo Bock, um dos responsáveis por impedir a circulação livre de informação na Colômbia é o ministro da Defesa Fernando Navarro, que divulga com frequência denúncias falsas sobre terrorismo digital e cibernético com o objetivo de estigmatizar as informações veiculadas pela imprensa independente.

A América Latina continua sua história de veias e feridas abertas. Segundo a Voces del Sur – projeto regional que reúne organizações da sociedade civil defensoras da liberdade de expressão em países como Argentina, Bolívia, Cuba, Equador, Honduras, Peru, Uruguai, Venezuela, Nicarágua, Guatemala, México e Brasil -, em 2020, o continente passou por uma explosão de ataques contra a liberdade de imprensa com 3.350 alertas de 13 países. 

Nesse contexto de violência, toda solidariedade é bem-vinda. “Para fazer jornalismo de forma segura, é necessário uma rede de apoio interno e externo para que todos saibam como você está”, afirma Abraham Jiménez. Na mesma linha, Lucía Pineda Ubau faz um apelo: “peço que nossos colegas latino-americanos não nos esqueçam. A cooperação de todos é fundamental”.

A cobertura oficial do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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