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Jornalistas defendem mais fontes negras para “empretecer” o jornalismo

As comunicadoras e ativistas Etiene Martins, Karol Gomes e Queila Ariadne dão dicas para diversificar a escolha de fontes, romper com o “protagonismo branco” e tornar a cobertura jornalística mais diversa

Por: Natalia de Souza
Edição: Artur Alvarez
Arte: Camila Araujo

Apesar de 56% da população brasileira ser composta de pretos ou pardos, no Brasil não há negros no comando dos maiores veículos, incluindo jornais, portais e emissoras, como revelou uma pesquisa recente do Reuters Institute for the Study of Journalism. As causas para o cenário atual de desigualdade entre negros e brancos no jornalismo brasileiro e dicas para diminuir este descompasso foram discutidos em um painel sobre como ‘empretecer’ a cobertura jornalística nesta quarta-feira (25) no 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

“A democracia racial é um mito na sociedade. Mesmo diante de tantos números discrepantes entre negros e brancos, há quem ainda diga que há igualdade”, critica Etiene Martins, booktuber e dona da livraria de literatura negra Bantu, que participou do painel ao lado das jornalistas Queila Ariadne, repórter do Jornal “O Tempo”, de Minas Gerais, e Karol Gomes, roteirista e ex-diretora do projeto “Entreviste um Negro”. As três são ativistas por um jornalismo mais diverso, que reflita o povo brasileiro de forma fidedigna.

“A gente não quer ser igual, porque todas as pessoas são diferentes entre si, a gente quer ter direitos e oportunidades iguais”, afirmou Queila.

Escolha de fontes

De acordo com Queila, as fontes utilizadas na atividade jornalística são, em sua maioria, pessoas brancas, e isso se dá por conta de um “pensamento colonizado”. “Existe a ignorância de buscar as fontes rápidas e recorrentes, o que desconsidera uma realidade que existe que é a falta de pessoas pretas como fontes jornalísticas”, afirma a repórter do jornal “O Tempo”.

Karol Gomes concorda e acrescenta que é alta a chance dessas fontes rapidamente escolhidas ou adquiridas junto a colegas serem majoritariamente brancas. “A estrutura de nossa sociedade levou grande parte dos jornalistas brasileiros a ter um banco de fontes com maioria de brancos”, disse.

Para Etiene, a ausência de fontes negras está ligada ao racismo estrutural. “Somos um país que tem cor. O que nos invisibiliza é o racismo, que é estrutural justamente porque a gente naturaliza o protagonismo branco”. Ela ressalta ainda que existe um racismo linguístico. “Por que uma traficante branca loira é chamada de modelo e um jovem negro, de criminoso?”, questiona.

Outro aspecto do racismo estrutural no jornalismo está na utilização de fontes negras apenas quando o tema é racismo, pontua Karol Gomes. “Os negros só são chamados para falar sobre racismo, mas essas pessoas têm intelecto para falar além disso, algo que muita gente não leva em conta por causa dessa visão preconceituosa de que o negro não tem acesso à informação”.

Antirracismo

Mas combater esse problema não é simples e exige o comprometimento de brancos e negros. “Não basta colocar um negro na redação para dizer que não é racista e utilizar isso como ‘passe’ para ser racista. É preciso, acima disso, ser antirracista. Nós não somos essa violência a que somos submetidos no dia a dia”, explica Etiene. Um jornalismo mais “empretecido” viria apenas com essa luta de todos, e não apenas da população negra, segundo a jornalista.

Para Karol Gomes, discursos em que a grande mídia prometia mudanças após coberturas de casos emblemáticos, como os assassinatos de George Floyd, nos Estados Unidos, e de João Alberto, em Porto Alegre, se tornaram vazios e não colam mais. “A imprensa brasileira disse que ia mudar, mas vi muito pouco por parte deles, nada significativo mudou”, disse Karol. 

Além disso, Karol acredita que o movimento Vidas Negras Importam demorou a ganhar mais expressividade no país e ainda não conseguiu ter um impacto significativo no jornalismo brasileiro. “O movimento antirracista brasileiro, do Vidas Negras Importam, não deveria ter esperado George Floyd para ter começado. Antes tivemos aqui o assassinato de Marielle, que foi muito forte e já deveria ter virado a chavinha”, analisa Karol, se referindo a Marielle Franco, ex-vereadora no Rio de Janeiro pelo PSOL, que foi assassinada junto com seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.

Dicas para ‘empretecer’ a cobertura

Para dar mais pluralidade ao trabalho jornalístico, Queila Ariadne ensina um método chamado “um por dois”, em que, para cada pessoa negra entrevistada, o jornalista peça a indicação de outra fonte negra. Assim, é possível criar e ir aumentando um banco de fontes negras. Queila também incentiva que, com esse banco, o jornalista repasse contatos de pessoas negras quando colegas pedirem indicações de fontes nos grupos de WhatsApp.

Outra estratégia, mais trabalhosa, é fugir do usual e do prático. “Busque ativamente por especialistas negros para entrevistar e dar voz a eles”, aconselha Queila. Fora essas dicas, as jornalistas sugerem estudar mais sobre profissionais negros, conhecer a cultura negra e aprimorar o radar para esse tipo de fontes, porque elas existem nos mais variados setores.

A cobertura oficial do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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