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“Essa também é uma história de negligência jornalística”, diz editor da Pública sobre Caso Samuel Klein

Com repercussão tímida em veículos tradicionais, denúncias de exploração sexual contra fundador da Casas Bahia tiveram dificuldade de chegar a mais pessoas

Por: Natalia Molinari
Edição: Giulia Afiune
Arte: Luana Copini

“Como contar a história de uma família de abusadores?”. A pergunta da jornalista da Agência Pública, Andrea Dip, resume a essência do que foi discutido no painel “Abusos sexuais em grandes redes de poder: os casos Samuel e Saul Klein”, realizado nesta quinta-feira (26) no 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. 

As suspeitas de que Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, e seu filho Saul Klein haviam cometido crimes sexuais ao longo de anos já haviam circulado em grandes redações, mas só vieram à tona nos últimos meses, em reportagens do UOL e da Agência Pública. 

No final de 2020, o jornalista Pedro Lopes, do UOL, produziu uma reportagem que detalhava como funcionava a suposta rede de aliciamento envolvendo o empresário Saul Klein, em que jovens teriam sido atraídas pela falsa oportunidade de emprego e passado a ser vítimas de abusos sexuais.  

Foi uma das primeiras de uma série de reportagens de diferentes veículos que denunciaram o esquema criminoso não só do empresário, mas também de seu pai, Samuel Klein, conhecido como o “rei do varejo”. A denúncia de que o patriarca fundador da popular rede de varejo havia comandado um esquema de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, aconteceu meses depois, em abril de 2021, pela Agência Pública

Para Andrea Dip, editora e repórter da Pública, contar uma história com denúncias tão graves contra uma pessoa que tinha uma imagem pública imaculada, como Samuel Klein, foi um dos principais desafios. “Ele era um homem que tinha uma imagem muito marcada na mídia como alguém que veio do nada e conquistou um império. Aos olhos do público, era visto como um benfeitor”, afirma. 

Justamente por isso, a equipe composta por seis repórteres da Agência Pública dedicou cinco meses de trabalho para documentar o caso. “Ao longo da apuração nós tomamos todos os cuidados para conseguir o máximo possível de relatos para deixar a história sólida”, conta o editor e repórter da agência Thiago Domenici, um dos responsáveis pela investigação. 

Imprensa negligente

Apesar de as reportagens serem de claro interesse público, os jornalistas avaliam que a história não recebeu a atenção que merecia em grandes veículos jornalísticos. “A repercussão não contemplou o tamanho da história. Não é qualquer coisa revelar denúncias de mais de 30 anos de uma rede de exploração sexual de crianças que incluía a estrutura de uma das maiores varejistas brasileiras ”, disse Andrea. 

Além da repercussão tímida na imprensa sobre o caso Klein, os jornalistas da Agência Pública enfatizaram que o caso era conhecido por parte da mídia e não foi contada. “Essa história envolvendo o Samuel Klein em uma rede de exploração de crianças e adolescentes era uma coisa inédita na imprensa, mas não era uma coisa desconhecida. A imprensa e todo mundo em volta sabia disso”, afirma Andrea, ressaltando que os relatos indicam que os crimes perduraram por mais de três décadas. “Os jornalistas devem questionar o seus veículos [porque não repercutiram], porque, quando gera desconforto, a gente repensa nossas práticas”, completa Andrea Dip, em entrevista exclusiva à Redação Laboratório do Projeto Repórter do Futuro. 

Domenici concorda: “Essa não é só uma história de exploração e abuso sexual, mas também de negligência jornalística”, disse. O problema, segundo o jornalista, é que se denúncias como essa não entram na cobertura noticiosa dos grandes veículos, é mais difícil que elas sejam conhecidas pelo grande público. “Se essas histórias tivessem a repercussão que mereciam, personalidades como o Gil do Vigor não estariam fazendo propaganda da Casas Bahia”, aponta Domenici. 

Cuidados necessários nesse tipo de cobertura 

Para os participantes da mesa, investigar casos sobre violência de gênero com um olhar sem preconceitos e considerando diferentes perspectivas é um desafio e um dos problemas encontrados nas redações. “A imprensa tem um vergonhoso histórico na cobertura de violência de gênero”, ressalta Andrea. 

Para a jornalista, existe uma visão machista que acaba culpabilizando as vítimas. “Sempre que a gente traz essas histórias é preciso fazer uma boa contextualização. É preciso falar sobre machismo estrutural, trazer dados, mostrar que de fato o Brasil é um dos países mais violentos para as mulheres. O papel do jornalista é fazer a construção de um novo olhar sobre esses assuntos”, comenta.  

Para Pedro Lopes, do UOL, o descrédito que mulheres vítimas de violência ainda enfrentam torna ainda maior o desafio de investigar essas histórias. “Me assusta a quantidade de obstáculos que essas mulheres enfrentam a cada passo na tentativa de fazer uma denúncia ou contar a história delas. Quando decidem falar, acabam parando no banco dos réus”, afirma Lopes. 

É por isso que investigar denúncias de violência também exige sensibilidade e cuidado para não revitimizar essas pessoas, avalia Dip. “Não é fácil fazer essas denúncias de violência de gênero. De fato, é um ato de bravura dessas mulheres. Por isso, como jornalistas, precisamos entender que estamos tratando de uma questão que envolve a vida, os traumas e toda uma rede de afeto”, explica a editora e repórter da Agência Pública.  

A cobertura oficial do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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