16º Congresso Abraji Últimas Internacional

Conexão Brasil-Índia: como é ser mulher na redação?

Indianas contam que mensagens de ódio por lá vêm com ameaças de morte e estupro. Jornalistas apontam que é preciso debater machismo e casos de assédio.

Por: Beatriz Santoro
Edição: Cristiane Paião
Arte: Cassiane Lopes

Além dos corriqueiros ataques à imprensa, sobretudo no meio online, as jornalistas mulheres na Índia ainda têm de enfrentar o machismo. “Nós temos [duas faces] que é nos proteger como jornalistas e lutar como mulheres”, aponta Neha Dixit, premiada jornalista que cobre gênero, direitos humanos e política no país. 

“Toda jornalista acorda com a sensação de que algo pode acontecer e afetar o seu trabalho”

Neha Dixit, jornalista indiana

Repórter experiente, Vidya Krishnan, que escreve para veículos indianos como The Caravan e The Atlantic, relata que frequentemente ainda recebem ameaças de morte e estupro. Para ela, não é uma “surpresa esse nível de ódio dirigido a mulheres jornalistas em um país que é construído com esses valores”, lamenta. 

Com o início da pandemia da Covid-19, ela viu seu trabalho na cobertura de saúde pública ficar ainda mais visado e passou a receber um número maior de ataques, sendo acusada até mesmo de promover fake news.

“Na Índia, a maioria dos repórteres de saúde são mulheres, porque tradicionalmente é considerada uma editoria mais ‘tranquila’ para trabalhar. A mulher fica com trabalho fácil. Até então [antes da pandemia], eu não tinha vivido esse nível de raiva que foi dirigido a repórteres mulheres”, relembra Vidya. 

Ela e Neha participaram da mesa “Índia e Brasil: populismo, misoginia e ataques à imprensa” nesta sexta (27), quinto dia do 16° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, com mediação da jornalista Patrícia Campos Mello, que também já sofreu inúmeras ameaças e hostilizações aqui no Brasil por conta de seu trabalho como repórter especial da Folha de S.Paulo, inclusive por parte do presidente Jair Bolsonaro. 

O caso indiano

Conhecido pela falta de transparência, o governo do primeiro-ministro de extrema direita Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata (BJP), também faz parte do coro de ataques às jornalistas. “Muitas de nós ouvimos um discurso oficial de ódio do governo Modi. As contas [das mídias sociais] de seguidores dele também atacam e não há desejo político de combater isso”, ressalta Neha.

Por pertencerem a castas tidas como “superiores”, as jornalistas explicam que encontram-se em posição de “privilégio” na sociedade indiana. Mesmo assim, isso não impediu que Dixit sofresse uma tentativa de invasão à sua casa no início deste ano. Para Patrícia, este caso é um exemplo de como as ameaças que acontecem no meio digital “migram para o mundo real”, alerta. 

Neha relata também que os profissionais da imprensa não encontram a proteção necessária. Ao denunciar o ocorrido, foi descredibilizada. “O policial me disse que eu estava imaginando, que ninguém estava me atacando. Esse é o nível de como somos tratadas.”, lamenta a jornalista.

“É mais fácil desacreditar mulheres do que lidar com as questões [que elas acusam]. A lição, para mim, é que quanto mais bem sucedida no jornalismo, mais perigoso fica”

Vidya Krishnan, fazendo um paralelo com a história da jornalista americana do século 19, Ida B. Wells, que também foi acusada de caluniadora na época.

Machismo e assédio judicial

A falta de solidariedade por parte dos colegas homens também foi citada por Vidya. “Teria algum jornalista homem que eu confie totalmente? Não.” Segundo ela, seus colegas são solidários em alguns momentos, mas não assumem uma posição de tentar parar com o assédio.

Em 2016, após publicar um relatório investigativo sobre tráfico de crianças por grupos nacionalistas hindus, Neha foi processada na justiça com acusações de difamação e incitação ao ódio. “Eu tinha que viajar mil quilômetros cada vez que eu tinha uma audiência. Quando você tem que fazer isso muitas vezes, os próprios processos tornam-se o assédio em si”, argumenta.

A cobertura oficial do 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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