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“O que nos dizem jamais será dito a um jornalista homem”, afirma Paola Ugaz

A jornalista, que atua no Peru, conversou com duas colegas de profissão que atuam em investigações na América Latina. Com mediação de Juliana Dal Piva, do UOL, elas relataram ameaças sofridas e indicaram formas de combatê-las.

Por Natasha Meneguelli | Edição: Wender Starlles | Arte: Maria Ferreira dos Santos

“O Peru é uma democracia. Ainda assim, a acusação está nos investigando por meio de artigos baseados em mentiras”, relata Paola Ugaz, correspondente do ABC da España no Peru, ao contar detalhes do abuso judicial que sofre no país. O caso é um dos assuntos discutidos durante a palestra sobre ameaças a mulheres jornalistas na América Latina, durante o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

As acusações judiciais enfrentadas pela profissional vão desde medidas protetivas, que a proíbem de sair do país, à necessidade de manter “um comportamento modelo”.

Em uma das situações, Ugaz foi acusada pela imprensa local de comercializar urânio e plutônio na cidade de Piura. Essas notícias falsas corroboraram com as denúncias feitas pela jornalista como uma maneira de tirar os governantes do poder, para vender os produtos a extremistas do Oriente Médio. “A prova: um chat no Microsoft Word, sem data ou hora”, comenta. Ela explica que o caso foi uma tentativa de mesclar o real com o falso, para que a difamação se tornasse mais efetiva. “Minha única resposta é ter mais e melhor jornalismo”.

A história de Maria Teresa Montaño Delgado, correspondente de diversos veículos de comunicação mexicanos e jornalista no The Observer, traz ameaças e até um sequestro relâmpago ocorrido em 2021. “Tamparam meus olhos. Todo o tempo eu estive amarrada”, conta. Os criminosos ainda levaram o cartão com o qual administra o portal em que trabalha, seus equipamentos, documentos de investigações em andamento e o seu carro.

Apesar de as investigações do crime não terem avançado, Montaño explica os desgastes que vieram por conta das campanhas de difamação depois do ocorrido. “Muitos colegas se afastaram de mim. E isso é muito triste, muito doloroso. Eles me isolaram”, lamenta.

Para Gabriela Martinez, jornalista do El Universal que trabalha na fronteira de Tijuana (México) com os EUA, a principal preocupação são com os protocolos de segurança para os profissionais envolvidos e para as vítimas. Neste ano, ela perdeu dois colegas de trabalho na mesma semana.

“O principal temor é que não tenha quem nos proteja”, descreve. “Há impunidade. Eles assassinam um companheiro e não acontece absolutamente nada”, completa. Martinez também conta que o assassinato de jornalistas ocorre quando crimonosos ou políticos julgam que as matérias publicadas favorecem determinado grupo.

Ela relata um dos casos que investiga, de tortura sexual cometido por agentes de segurança contra mulheres em situação de vulnerabilidade social. “Não só não são punidos, como sobem de cargo e passam a ter mais poder do que antes”, aponta. A resposta foi procurar por organizações de jornalismo colaborativo, com o objetivo de garantir segurança para ela, seus colegas e suas fontes.

Além de ter recebido mensagens de ameaça, Martinez também foi alvo de notícias falsas e campanhas de difamação.

Sobre as particularidades das ameaças sofridas por jornalistas mulheres, as profissionais relataram insultos, experiências e observações que tiveram ao longo dos anos de carreira. “O que nos dizem jamais será dito a um jornalista homem”, afirmou Ugaz. “Se metem com o seu corpo, com a sua vida, com quem sai ou deixa de sair”, completou.

Martinez disse que as agressões sempre começam com a infantilização e com o desmerecimento das capacidades das mulheres como jornalistas. “Primeiro, não vão acreditar que faz seu trabalho por capacidade. E sim, porque alguém te mandou lá”. Ela também não vê as mesmas atitudes contra seus colegas homens.
Para Montaño, a atuação das profissionais do jornalismo é vista como afronta: “Já me aconteceu de me desprezarem já no início, sobre como me atrevo, sendo mulher, a questionar o poder. Investigá-lo”.

Entre as formas de diminuir os impactos da violência e de conseguir investigar com mais segurança, as jornalistas citaram a importância do trabalho colaborativo e de medidas de precaução. Destacaram que, mais importante que a exclusividade e o furo, está a proteção pessoal, e isso não vai afetar negativamente a reportagem. Pelo contrário, a tornará ainda maior, e com mais visibilidade.

A cobertura oficial do 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) – Oficina de Montevideo.

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